De mãos vazias

maosvazias.jpg

As aulas quase a começar. As ideias a fluir e o tempo a escoar-se como areia de praia.
Ainda nem sei se alguém vai achar interessante o que me proponho fazer, quem será o orientador, como irão decorrer os seminários. Nenhum encontro ainda, nenhuma aula (isto de ter sido dispensada do 1º ano curricular e entrar directamente na tese foi uma agradável surpresa que, todavia, acrescentou as palavras susto e urgência à minha lista de palavras de bolso).

E querer ser observadora e observada, actriz e realizadora, aplicando na prática lectiva as ideias de algo que ainda não tive ocasião de partilhar, optando por um trabalho de projecto de carácter mais prático, coloca-me um conjunto de problemas que a seu tempo, espero, se alinharão mais serenamente, logo que tenha a oportunidade de conversar com alguém…
Vou avançando e depois reajusto o necessário. Esperar é que não consigo.

Vou lendo, muito. Deixando as tempestades pôr em causa ideias a precisar de pintura. Ainda pensei: tenho de preparar tudo, saber já o que preciso, compreender exactamente como funciona… A ansiedade a tomar conta. Mas é impossível. Preciso de o reconhecer sem receio. Verdadeiramente impossível sem juntar as noites ao dia de trabalho. Olhem para o calendário de reuniões e outras tarefas no arranque do ano lectivo e percebem o pouco tempo que sobra. E eu tenho de trabalhar o real. É um compromisso que preciso de estabelecer, comigo, com quem um dia queira experimentar. Uma fronteira de lucidez, sensatez. O professor não é um ser diferente dos outros. Tem de comer, fazer exercício, dormir, descansar, divertir-se, conviver com a família. Projectos hercúleos sem qualquer hipótese de futura aplicação não servem a causa educativa, apenas a vaidade pessoal.

Percebi, então, que era um erro. Que fazer o que pretendia, controlar cada pormenor da acção era exactamente o que não devia ser feito para aplicar a ideia que me povoa o espírito.
Um erro querer prever tudo, antecipar cada segundo e, mais uma vez, retirar aos alunos a possibilidade do exercício da autonomia, da escolha do caminho, da integração de ideias num contexto que pretendo cheio de conecções e quase nada segmentado e prescritivo. Tolhê-los nos seus gestos inesperados por medo meu, sim, puro medo, de não estar à altura, de não conseguir entender a complexidade dos projectos que possam vir a surgir das suas mãos, de não saber mais do que todos eles, quando finalmente a ferramenta que escolhi estiver em plena acção na sala de aula. Sabes Seymour, aqui pensando em ti e na tua luta pela sobrevivência desde há alguns meses, recolho das palavras que tenho bebido nas tuas fontes esta essência doce com cheiro a uma certa incerteza a que terei de me habituar: não, não saberei o que tenho para fazer na segunda-feira, numa tal data, num determinado momento. E isso não dirá de mim uma inconsciência, uma incompetência, uma inaptidão. Não. Dirá de mim alguma coragem. Uma exigência cada vez maior: comigo e com os outros. Acredito, tal como tu, que assim chegaremos mais longe. Disponho-me a experimentar. A partilhar.

Confiem em mim. Prometo-vos, meus alunos, apenas isto: levar-me até vós de alma cheia, cabeça preparada e mãos muito vazias a pedir, exigir muito de vocês e de mim. Trocaremos mimos, preencher-nos-emos mutuamente à medida que formos escrevendo a história. Não a escreverei por vocês.

Que eu vou aprender ao mesmo tempo que vocês aprendem. As mesmas coisas e coisas diferentes. E vamos pensar em voz alta sobre essas viagens. Será a minha melhor lição junto de vós. Aquela a que verdadeiramente deverão prestar atenção.

(As pessoas crescidas também têm de aprender a aprender, acreditam?)


RSS my delicious

  • Ocorreu um erro; é provável que o feed esteja indisponível. Tente novamente mais tarde.

Blog Stats

  • 162,649 hits
Setembro 2007
M T W T F S S
« Ago   Out »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Categorias


%d bloggers like this: