O meu problema são… os problemas!


De volta às actividades de matemática com os mais pequenos, continuámos a nossa aventura no combate ao papão que é habitualmente, para muitos, a resolução de problemas.
Depois de uma introdução em que procurámos, com a ajuda de Polya, ainda no primeiro período, perceber o que era possível fazer para melhorar a técnica de resolução de problemas, hoje foi a vez de nos concentrarmos no primeiro ponto, um dos mais importantes: a compreensão do enunciado.
Com uma ficha de trabalho por base, lá avançámos nós. Leitura de cada problema em silêncio, reconto da história por palavras suas, identificar o que é pedido. Perceber se todos os dados são necessários, se faltam dados, enfim… não cair na ratoeira de só lhes apresentar problemas arrumadinhos prontos a consumir, de enunciados assépticos e encaminhadores para uma operaçãozita qualquer que se faz mecanicamente, sem se olhar, sem se verificar o sentido das conclusões a que chegamos. A certa altura num dos problemas:
Faz-se uma conta de mais?
O que é isso? Vamos lá a usar a linguagem elegante e cuidada da matemática! Faz-se… usa-se… uma… uma… multiplicação?
(Percebem onde quero chegar? De tanto os deixar a marinar na simplicidade, ainda há alunos que não associam a designação de uma operação ao símbolo de que ela se serve…)
Outro dos problemas era este:
3 – SALADA DE FRUTAS
Num dia quente de Verão, não há lanche mais apetitoso que uma boa salada de frutas.
As três amiguinhas, Paula, Filipa e Joana, foram à mercearia e compraram: 1 kg de bananas, 1 kg de morangos, 1 kg de laranjas e 1 kg de pêras.
A salada ficou uma delícia!
Será que os 2,5 €, que o pai da Paula lhe deu para comprar a fruta, chegaram para pagar a despesa?

Lido o enunciado… recontada a história, vai de responder às perguntas…

que não interessava saber que estava calor e tal… que não, que os dados não estavam no enunciado, estavam na figura… que sabíamos tudo menos o preço dos morangos, porque a placa tinha caído… que sim, que podíamos levantar a placa (informei que 1 kg de morangos custava 1 euro)… ai que isto assim fica caro! Não deve dar (estimar, pois) E lá vamos pensando… mentalmente calculando… que não, que não dá… que o dinheiro não chega…

De repente o perspicaz F, que com o entusiasmo até se levantou de ficha na mão, serve-se do dedo para apontar a descoberta na ficha: mas aqui diz que ficou uma delícia! Oh professora, assim a resposta tinha sempre de ser sim, porque quer dizer que elas fizeram a salada! Pois, F., mas a pergunta não era se elas tinham feito a salada, era se o dinheiro chegava… e… meninos, já sabemos que dois euros e meio não chegavam, mas acham que elas desistiram de fazer a salada de frutas só porque o dinheiro não era suficiente? Voltaram para casa de mãos a abanar? Era isso que vocês fariam?
Não, não!
Então vamos lá inventar um final feliz e saboroso. O que pode ter acontecido?
Muitos dedos no ar e aqui vamos nós:

– descobriram dinheiro na rua!
– telefonaram ao pai a pedir mais dinheiro e ele veio à loja!
– uma das meninas descobriu umas moedas no bolso!
– resolveram levar menos quantidade de cada fruta!

– o senhor já as conhecia achou-lhes graça, teve pena e fez um desconto!
– o senhor ofereceu-lhes os morangos!
– não levaram uma das frutas!
– elas negociaram os preços com o senhor e ele baixou-os!
– elas disseram que depois voltavam para pagar o que faltava!

Ligarmo-nos afectivamente à matemática, aos problemas, pensar, usar a criatividade, não formatar as mentes para a coisa pouca, a coisa sem nexo, a apatia, a pobreza intelectual, a uniformização. Gradualmente aumentar a exigência, não prescindir dela, praticar uma matemática com sentido, com sentidos, manter o entusiasmo pela vida, pelo trabalho, pelo ser-se inteiro dentro e fora da aula. Também a prática de procedimentos, a instituição do dever de cumprir, de estudar. Tudo junto é muito mais. E o programa, sempre o programa, desfolhado frequentemente sem o cuidado necessário (a tutela vai dando uma boa ajuda, pois é isso que provoca com as suas medidas… limitando o tempo necessário à preparação de boas actividades e materiais, impondo a ditadura da contabilização, confundindo isso com prestação de contas, degradando as condições para o necessário estudo e aprofundamento do trabalho).

Não podemos esquecer aquela que é a mais nobre missão da educação e da matemática: aplicar em contexto, compreender, resolver problemas… e é preciso tempo para estudar e para o fazer com qualidade, não me canso de insistir.

Dar a matéria a correr garante que ela seja recebida? Duvido.

Há algum segredo? Não.

Há crença neles, nas capacidades deles, na inteligência deles, há respeito por eles, que é a maior e a melhor forma de os amar como se fossem nossos… Há o acreditar que temos de ajudar a construir uma geração bem mais preparada, resistente, criativa e forte do que a nossa.

Mais não sei…


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