Fácil? Não queremos…

Início da aula… as mil dúvidas sobre os projectos “Scratch” e ainda: viu a minha mensagem de mail? Viu o projecto que enviei? Vi vi já respondi a tudo hoje de madrugada às 5 e pouco. Às 5 e pouco? Sim… julgam que a minha vida é como a vossa? Rimos. Isto é muita coisa para fazer!…Tento ir oferecendo algum exemplo de dedicação e gosto pelo que faço. Exemplo de disciplina.

Ponto de ordem. Meninos, vocês entusiasmam-me, eu a vocês, mas temos de passar a ser mais disciplinados todos nesta coisa da entrada e das dúvidas e ideias e informações e pedidos e tal. Daqui para a frente tragam algumas das dúvidas e pedidos por escrito para não nos perdermos, nem divagarmos. Depois, antes do final da aula, esclareço o possível e na próxima ida à sala de informática, esclarecemos as dúvidas que precisam de computador à nosssa frente.

Entretanto, o meu M (portador de autismo) levanta-se e vem-me mostrar o desenho de um écran de computador com a palavra Scratch escrita. Está fascinado e aderiu bem, depois de conseguir convencê-lo de que precisava de me dar um bocadinho de atenção para ir aprendendo coisas novas, para além da exploração da galeria de projectos e jogos. Já desenhou. Já mostrei como se coloca um boneco a andar… A alegria de o ver mover-se foi grande. A professora da equipa de apoio lá vai aprendendo a trabalhar com o Scratch e faz um trabalho individualizado com ele numa aula, uma vez por semana.

Vamos continuar a nossa viagem pelos problemas?

Continuámos. Ficaram dois problemas soltos por fazer da ficha de compreensão de enunciados que referi AQUI. Escuto o que fizeram. No penúltimo problema (pagamento de um parque de estacionamento) dedos no ar: oh professora, não era possível calcular porque faltava no enunciado a hora a que o pai da menina tinha chegado ao parque! Só estava a hora de saída! Mas eu depois escrevi muitas possibilidades… se ele chegasse a certa hora e estivesse tanto tempo, pagava tal e se chegasse…
Vários fizeram o mesmo, com variantes. No último problema, por lapso, não constava a figura referida no enunciado: alguns responderam que não tinham os dados necessários, pois não sabiam como era a forma da casota do cão nem o preço dos vários tipos de placas de madeira necessários. Outros inventaram uma casota e as placas com os preços.

Começo a ver progressos em alguns alunos que iniciaram o ano com muito receio dos problemas. Um progresso sobretudo afectivo de relação e confiança, que se vai consolidando e abre portas para o resto. Só assim os resultados podem surgir. Precisamos de ir conversando e tenho de estar sempre muito atenta aos sinais de desânimo, de medo, de falta de confiança: eu nunca consegui… já na primária eu não conseguia e achava difícil… Hoje ainda ouvi três alunas assim…

Parei a certa altura: afinal o que de mais importante andamos nós aqui a aprender com tudo isto? Alguns: a não ter medo dos problemas… A enfrentá-los… A não fazer dos problemas um bicho-de-sete-cabeças! Se o problema tem sete cabeças cortam-se seis e deixa-se uma! Rimos mais um pouco com esta resposta e divagámos um pouco sobre ela. Pode ter sete cabeças e cortamos uma de cada vez com paciência e persistência. Isso acontece muitas vezes nos problemas e acontece muito no Scratch onde precisamos de resolver pequenos problemas para fazer o que queremos, no nosso grande problema que é o projecto que desejamos construir!

Vamos lá continuar!

Avanço. Gosto de saltar de assunto em assunto, inesperadamente, porque a matemática foi feita para misturar conteúdos e ideias, portanto… pobres deles (disse-lhes isso… pobres de vocês com uma professora assim!… riram-se, outra vez). Mas não podem ser apenas treinados para o discurso linear e arrumado. Há que os baralhar um pouco, pôr os neurónios a fazer ligações novas. Às vezes estico a corda, puxo muito por eles, mas a nossa relação pedagógica/afectiva suporta a dificuldade que é para qualquer pessoa (e sobretudo alunos tão pequenos) lidar com a minha natural aceleração e com a grande exigência que decorre dela. Até para mim às vezes não é fácil! (Agora estou a rir para mim e de mim…)
Gostamos de rir na nossa sala fria e molhada pela manhã. Aquecemos um pouco. Rir é uma coisa séria que não pode ser esquecida. Rir não é brincar. Rir não é sinónimo de falta de exigência. Rir fortalece.

Quem é que se lembra do que é o perímetro?
Alguns dedos no ar.
Quem é que não se lembra do que é o perímetro?
Alguns dedos no ar e outros dedos envergonhados que custam a subir e o fazem timidamente.
Meninos, estamos com vergonha? Não há que ter vergonha de ainda ter dúvidas ou de não lembrarmos um assunto! A ideia é ir aprendendo o que não sabemos, recordar o que não lembramos!

Digo isto muitas vezes aos meninos do 5º, mas sei que demora o seu tempo a acreditar que não rotularei, não penalizarei, que ninguém troçará… Quando olho para os meninos do 6º, sempre de dedo no ar, com os seus não entendi, não percebi, não compreendi, tenho dúvidas aqui, tenho dúvidas ali, como é que se faz? e se fosse assim? e porque se põe ali um um debaixo? e porque não é antes assim? e pode fazer-se desta maneira?... sei que a principal missão foi cumprida: a de ganhar a sua confiança pelos actos coerentes que reforçam a verdade das palavras. E depois o caminho é cada vez mais fácil…

Mas dizia eu… o perímetro… (estão a imaginar-me numa aula?)
Em poucos minutos, recordar a ideia, o conceito, o significado. Aqueles que se lembram partilham. Um exemplo ou dois, mais um rodapé e tal e… a área (chão) já a despontar… compara-se… voltaremos aqui… e de novo o perímetro.
Bem… acho que agora o melhor é pedir-vos já para resolver um problema assim… hummm, deixem-me cá ver… querem um assim dum triângulozinho equilátero em que dou o comprimento de um dos lados? (Desenho no quadro para exemplificar) Não!!!! Isso é muito fácil! Hummmmm… e se for um quadradinho com 5 m de lado? Não!!! Isso é muito fácil! (Vão respondendo entusiasmados à espera do problema mais difícil que prometi no início da aula, como quem não quer a coisa). Hummm… podia ser… um problema parecido com o de uma prova de aferição do 6º ano? Siiiiimmm!!!!!
(Já trago tudo na manga. Parece um bocadito caótico, mas é um caos muito razoavelmente organizado🙂

Então aqui vamos! Desenho a figura, deixo as pistas (comprimentos) em alguns dos lados da dita, outros terão de ser descobertos a partir delas (pistas). Aguardo, atenta às solicitações. Vou acompanhando.
Mais de metade (11) faz o problema rapidamente -calcular o perímetro (não usei ainda a versão exacta do problema da prova de aferição onde me inspirei, mas um dia vou usar… provavelmente como trabalho individual para identificar dificuldades… depois deixá-lo-ei aqui. Por enquanto não posso… que eles são marotos e despachados, nunca se sabe!🙂.
Explicam-me o caminho que fizeram, um a um, ao meu ouvido (adoram trocar segredos comigo e eu com eles, para não interferir no pensamento dos colegas). Outros precisam apenas de um sopro de nada, ou umas provocações e chamadas de atenção para a figura, quatro ficam no intervalo comigo porque as dúvidas não foram ainda ultrapassadas, e acabam um pouco mais esclarecidos… o medo ainda os bloqueia… sente-se. Muito já caminharam todos eles! Na primeira ficha que fiz, em jeito de diagnóstico, com dois pequenos problemas, a maioria bloqueou. Em 19, apenas quatro alunos os conseguiram fazer. Confesso que me assustei. Mas pouco. Já sei que preciso sempre de investir muito nesta questão. Não é novidade.

Saldo muito positivo hoje, mas gostava de ter mais tempo. Hora e meia passa a correr… Esta coisa da escola a tempo inteiro em retalhinhos, sem espaço para pensar, aprofundar… sempre a interromper e a mudar de lugar…
Quando é que um dia percebemos que o mundo quer da escola algo verdadeiramente diferente e não estas coisas estranhas e absurdas que fingem que mudam tudo, retalham tudo, fragmentam cada vez mais, mas não mudam nada do que é essencial? Quando é que percebemos que para se ser mais exigente, conseguir muito mais, chegar muito mais longe, é preciso mudar cenários?


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