Um projecto Scratch: Não tens escolha…

Aula de EA – 6º ano (durante um trabalho de reforço relacionado com a resolução de problemas em que alunos autonomamente, em grupo, procuraram identificar as dificuldades sentidas na ficha de avaliação e corrigir os erros, entreajudando-se, com o nosso apoio).
Professora, acabei de perceber que consegui resolver todos os problemas que errei na ficha. Vês? Vocês têm de confiar que quando eu digo que o que vos proponho, sem ser demasiado fácil, está ao vosso alcance. E importante não é uma nota aqui e ali, é a atitude, é o que depois conseguem fazer, é perceberem se a dificuldade se relaciona com nervoso miudinho, falta de conhecimentos, insegurança… Também tenho de treinar os vossos “nervos”… Um dia em vez de um teste como este, é um exame de que depende a vossa vida e precisam de aprender a ficar calmos nessas alturas, para a cabeça poder estar concentrada e focada no que importa. Claro que o estudo é fundamental, a preparação dá segurança, mas depois é preciso treino para não nos irmos abaixo nos momentos de avaliação escrita. Por isso vos exijo tanto e vos ajudo depois a lidar com os resultados.
Conversamos muito. De mesa em mesa lá se orienta, se ajuda, se conforta, se faz pensar, se anima…
Os que têm tudo certo, ou quase tudo, acabam depressa a primeira tarefa e vão buscar um portátil para avançar nos trabalhos com recurso ao Scratch. Reparo que a M faz um projecto sobre classificação de triângulos… hei-de usar com os mais pequeninos do 5º… A T (que também está a trabalhar nesse projecto com ela) diz:
Professora, já fiz um projecto sobre a SIDA para a campanha.
Sim? Está publicado?
Está.
Fomos ver.
Começa de forma perfeita e depois… A solução que encontraste é pobre T. Pouco criativa e sem força. Temos de reflectir um pouco.
Pois é professora. Eu também não gostei muito do fim…

(Sou muito franca com eles e eles estão habituados a sinceridade, a verdade e não a falinhas mansas, mão sobre a cabeça, coitadinho que é pequenino e não pode fazer melhor… Também sei como o fazer, a quem, em que momentos, em que dose… Perrenoud tem um livro cujo título e conteúdo me fascinam: Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza. O meu instinto de acção e reacção na hora é feito de experiência, sim. Mas uma experiência enriquecida pelo amor genuíno, pelo cuidado e amizade que nutro pelas pessoas a meu cargo que são os alunos. Aprendo… não acumulo apenas experiência estéril ao longo dos anos. E leio. Quer dizer, lia muito. Estudei sempre muito enquanto tive tempo para isso. Era, como é hoje, uma exigência na componente não lectiva. Antes podia cumpri-la. Agora é difícil.)

Tu começas com uma imagem fortíssima em fundo negro e uma pergunta que marca a acção. O primeiro écran é perfeito. Depois… Dizeres apenas “não à sida”… no segundo, não só não responde à pergunta inicial, como não lhe dá sequência e não tem impacto. À pergunta que tu fazes, responderias como? A pergunta dá-nos opção?
Não… Quer dizer… dá… mas se as pessoas não usarem preservativos sofrem a consequência…
Sim… e então T? A mensagem do teu anúncio quer que as pessoas tenham opção ou não?
Não, professora. Quero dizer que elas não têm escolha, pois se responderem “não” podem apanhar sida ou outras doenças.
Então pensa como poderias colocar isso no segundo écran, de forma a que quem vê sinta que é mesmo melhor não experimentar a alternativa de não usar preservativo.
Oh professora, eu podia dar a resposta por eles e dizer primeiro “Sim!” e depois “Não tens escolha”. E nem falava da SIDA.
(Ela ultrapassou-me. Na minha cabeça eu ainda estava a ver a palavra sida no segundo écran como uma necessidade, mas nem falei do assunto. A T tinha encontrado a solução perfeita. Há mais força na ameaça implícita do “não tens escolha” sem dizer porquê… do que explicar que é por causa da sida… um pouco como o medo do desconhecido…) . Disse apenas:
Encontraste! Agora vê como queres fazer isso graficamente.
A T e o F trabalharam juntos… passado algum tempo a T chamou-me.
Professora, não consigo alterar o tamanho da letra só para a palavra “Sim”.
Tentámos e nada… Ao construir um sprite o scratch assume o texto integral como sendo o elemento a mexer e não permite separação (apercebi-me disso hoje pela primeira vez). Antes mesmo de eu pensar numa solução, a T diz:
Só se eu fizer dois sprites diferentes… e até ficava giro! Primeiro aparecia o Sim! E só depois o “Não tens escolha” a deslizar no écran até encostar ao lado direito…
Boa! Vá… avancem…
Regressei mais tarde depois de mais umas voltas pela sala a ajudar quem pedia. Ainda o problema de resolver como parar as letras para que parecesse que o écran era o limite da escolha. As letras caminhavam e desapareciam. Rapidamente o F ajudou dizendo que havia uma instrução que servia para evitar que isso acontecesse.
Oh F, pediu a T, explica-me que essa eu nunca usei.
Ainda a escolha de sons… Meninos, todos em silêncio para ouvirmos aqui uma coisa!
Antes do final da aula o projecto estava concluído (as palavras ainda podem andar um pouco mais) e colocado na galeria da T.
Pode ser visto aqui e quem tiver tempo, veja mesmo. (Repito que são alunos do 6º ano… estão comigo há um ano e dois períodos… chegaram-me tão pequeninos e cresceram tanto!):

Scratch Project


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