Ufff… (de como o cansaço pode ter sabor a gelado de morango)

Tal como previsto… novidades. E tantas!
No arranque da manhã, pelas 8 e pouco, enquanto aguardávamos pelos mais atrasados, fiz a ronda das férias, cada um na sua vez (eles gostam de contar e esvai-se assim alguma da energia em excesso com que nos chegam, depois da interrupção)… eu estive doente e eu fiz isto… e eu fui ali… e eu fui acolá…
Pelo meio, a B., cheia de vontade de partilhar o que fez com o scratch e o seu blogue nas férias diz:
Oh professora, adorei corrigir os erros do meu blogue com o vídeo que a professora fez para mim! Até falei disso lá!
(mais tarde no Scratch time… vi que há novos erros para ela corrigir… mas a motivação é grande para manter um blogue limpinho e bem escrito, portanto, estamos no caminho certo. Há que persistir. Eles têm tantas dificuldades na escrita que este tem sido, para alguns, uma forma de os fazer reflectir sobre o seu trabalho, de escrever e de melhorar a qualidade da sua escrita, tal como tem acontecido com o meu Kiko das borboletas que já está no 6º e fez imensos progressos desde o ano passado… Como devem imaginar, este tipo de atendimento tão personalizado tem muitos custos de tempo… coisa que a legislação não leva em conta. Eu é que não tenho culpa e como acredito que é neste cuidar próximo que reside alguma hipótese de sucesso, hei-de continuar a gritar enquanto puder para chamar a atenção.)

Pois é… tenho uma surpresa para aula de hoje.
Lembram-se do referencial cartesiano? Eu preciso de saber se compreenderam… se já sabem como o utilizar… e… fiz uma fichinha de propósito para aplicar hoje, apanhando-vos distraídos, esquecidos (a professora Dalila será testemunha de que não vos ajudarei a não ser com a leitura do enunciado, para ter a certeza de que os erros se devem às dúvidas matemáticas e não a outras). Vamos começar?
Preparei esta actividade na Páscoa. Queria saber quais eram as sobras de um segundo período às voltas com o Scratch e onde o referencial foi introduzido, depois de 15 dias de amêndoas. Mas queria que tal acontecesse sem revisão, sem estudo, sem preparação. É a melhor forma de saber o que guardaram, o alcance da compreensão e da aprendizagem, a dimensão das dúvidas. Depois, sim, depois trabalharei com os que sentiram mais dificuldade, tentando encontrar outros caminhos para todos chegarem onde é preciso.
Na essência a maioria percebeu o conceito. Alguns apenas trocam, em certos pontos, o x com o y, sobretudo no processo de colocação do ponto nas coordenadas indicadas e não no processo de identificar coordenadas de pontos já marcados. Alguns alunos completaram o trabalho praticamente sem erros, alguns não acabaram, embora estivessem no caminho adequado, outros revelaram maior dificuldade. Tenho presente que é um conteúdo do 7º ano e que estes meninos estão no 5º. Mais tarde farei o tratamento dos dados de forma pormenorizada para perceber algumas coisas e relacioná-las com outras… o mestrado sempre presente.
Guardarei estes exemplares, levarei novos para que cada um possa observar o que fez, analisar os erros (serão eles a corrigi-los) e depois voltarmos ao exercício novamente. Avaliação formativa… avaliação entranhada na acção. Avaliação formadora que ajuda a crescer, a aprender a persistir, a ser exigente, a evoluir.

E querem saber uma coisa, meninos?
Siiiim!
Para além disto serem conteúdos do 7º ano e vocês estarem no 5º… usei mesmo exercícios de um manual do 7º sem os alterar. Não preparei uma coisa mais simples…

Verdade?
Verdade!

Ensino-os a gostar de desafios que os arrastem para a frente… Nem todos avançam com a mesma segurança, mas cada um vai avançando como pode, porque eu não quero ninguém para trás e não páro de puxar!
Não lhes facilito o caminho… mas tento colocar obstáculos à medida. Procuro encontrar a medida certa, o que não é simples de equacionar com tantos meninos diferentes, com aquisições de base e medos diferentes. Mas isso é o trabalho do professor que não devia deixar nunca de ser uma espécie de investigador permanente, minuto a minuto, na análise dos problemas, para ensaiar hipóteses e procurar soluções.

Depois à tarde… aula de Ciências com eles. Umas revisões?
Lembram-se do Fado Hiphop da Bicharada que partilhei convosco no blogue da turma, feito há uns anos pelos alunos de outra turma com a minha ajuda? Tem de ser continuado… agora podia ser feito o das plantas…
Oh professora cante um bocadinho da música…
Aula de poucos minutos, só um tempo… pensei… O meu menino autista instável e a precisar de atenção, o meu outro menino que veio tardiamente pisa insistentemente a linha do abandono e da resistência às tarefas…

Por que não cantar?
Avancei…
Nem cinco minutos e já tinha o meu menino diferente a cantar feliz o fado, com uma afinação que os colegas elogiaram e que me apanhou de surpresa.

Animais da biosfera
tão diferentes que eles são
no revestimento do corpo
na forma e na dimensão.
Na forma como andam
ou seja locomoção
e nos alimentos que escolhem
para a sua alimentação(…)


o hiphop pelo meio, o outro menino a prender-se à ideia de apresentarmos a canção no final do ano e de tomarem em mãos a escrita do que falta, em AP, por exemplo, já com vontade de cantar mas ainda envergonhado… a turma ao rubro a esmerar-se. E, não, isto não é um rebuçado que disfarce seja o que for. Trabalhámos estes conteúdos seriamente com estratégias variadas no 1º e 2º Período… isto é um complemento de síntese… educação pela arte. Acredito no poder da música e vejo os efeitos dela nestas idades. Se vissem, ouvissem a felicidade empenhada, atenta e afinada do meu menino diferente cantando ora fado, ora hiphop, eu corrigindo as suas dificuldades de pronúncia, ele fazendo um esforço supremo para dizer as palavras como elas são, percebiam que há milagres que se fazem assim, de forma simples. Só com uma canção. Integra-se quando se encontra uma actividade exigente e partilhável no máximo da sua extensão.

Dali para a aula de apoio com o 6º. Tão bom revê-los e resolver problemas de todas as formas… Depois, sem intervalo, na mesma sala, mergulhei directamente no Scratch time, facultativo, vem quem quer e quer sempre tanta gente… hoje 17 alunos e tantos projectos, tantos entusiasmos! Aproveitei para pedir mais, exigir mais, sugerir que fizessem um esforço para evoluir na programação e não ficarem eternamente presos a projectos simplistas e pouco interactivos, só porque era mais fácil. E insistir cada vez mais na escrita das notas de campo dos projectos, mais completas, mais explícitas, mais reflectindo a verdadeira essência de cada caminho… e na correcção dos erros…

Depois de uma manhã cheia, andei em completa roda-viva entre as 13 e as 17 sem intervalo nem interrupção.
Agora aqui, ainda sem interrupção – são 20 horas, aproveito a teia para fixar no tempo os momentos do dia, recolher as impressões que mais tarde poderei vir a usar no mestrado.
Trato os vídeos feitos, as fotos, as minhas próprias notas de campo.
Doem-me as costas, tenho fome, preciso de parar um bocadinho mas, antes de parar (um parar que não é bem parar, porque tenho de continuar as leituras de férias) deixo aqui um dos vídeos do dia e um dos projectos que ficou concluído (se tiverem oportunidade, experimentem o delicioso e simples desafio proposto pelo Bocas)…

Não, no vídeo não disputo um telemóvel com ninguém. Não é um vídeo triste.
Ajudo, acompanho, alegro-me com as conquistas de uma menina pequenina que, tal como todos os outros nestas turmas, passo a passo se vai dirigindo ao futuro que será o seu e que ninguém consegue imaginar. Será um futuro com a tecnologia ainda mais entranhada na vida do que já está hoje, a única certeza.
Tentar prevenir o inevitável, enterrando a cabeça na areia, é próprio de quem parou no tempo e se consome em inútil lamúria.
Prefiro ajudá-los a dominar utilmente, serenamente, a tecnologia que os rodeia. Vou crescendo com eles e sirvo-me dela para os fazer crescer comigo em todos os sentidos possíveis.

Scratch Project


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