Inseguranças… mas…

Sou muito exigente, comigo, com os outros…
Sei que não posso nem devo colocar a fasquia excessivamente alto, que tenho de dar tempo ao tempo, que se vai aprendendo muito pelo caminho, para além dos conteúdos, que é natural haver retrocessos, desmotivações, que formar e educar não acontece de repente, de uma vez só (não basta um comprimido para curar a falta de competências), que muitos alunos ainda não aprenderam a lidar com a frustração causada pelas dificuldades, que frequentemente optam por projectos mais fáceis por sentirem que não dão conta de algo entre mãos, que gostam (estão habituados?) a um sucesso fácil, fast food, aprende conta, resolve conta, que lindo menino, palminhas e tal, esquece conta, aprende outra coisa qualquer fácil e por aí adiante… sei… e em cada dia que passa tento encarar isso também como o meu desafio pessoal, o meu projecto em cada ano, não desanimar, não desistir, continuar sempre a acreditar. Embora não me vá dando mal, há momentos em que a insegurança se instala e é necessário pensar, repensar, alterar estratégias, empurrá-los para avançar…

Hoje fizemos um balanço. Percebi os esquecimentos, as falhas…
(Nesses momento esqueço as coisas boas, que também há, e só consigo trazer à memória o que ainda não consegui com alguns deles).

Vamos elevar a fasquia. Sabem o que é isso? Dois alunos sabem, dedo no ar: Aumentar a dificuldade? Fazer coisas mais difíceis?
Sim. É isso mesmo. Temos de largar a segurança do que conhecemos e aventurarmo-nos… Alguns já lá estão a chegar e terão de a elevar ainda mais, outros precisam de introduzir mais animação e interactividade nos projectos. Nem todos fizeram o projecto dos polígonos que eu pedi… foram adiando e fazendo umas coisas mais simples pelo meio. Querem ver a diferença?
Fiz meia dúzia de perguntas sobre os ângulos, os polígonos e apenas respondiam os que se haviam empenhado em ultrapassar as dificuldades construindo projectos e concluindo-os.
Há projectos com erros que assim continuam, por mais que eu e o ffred digamos o que precisa de ser corrigido… há pessoas que começaram com imenso entusiasmo e depois pararam, há pessoas que não passam de projectos quase só com imagem e informação.
Vamos fazer um esforço para avançar?
É que isto de aprender 2+2 igual a 4 e depois ficarmos muito satisfeitos com o nosso umbigo sem andar para a frente, não nos leva a lado nenhum…

Azar hoje de manhã. Página do scratch em baixo desde ontem, não deu para ir aos manuais (queria que os consultassem e procurassem aprender novas competências/instruções)… mudança de grupos para que alguns alunos possam desabrochar ao lado de parceiros que não os abafem pelo facto de já estarem noutro patamar… propostas de novas ideias genéricas para linhas de desenvolvimento de projectos “mais à frente”… e aí vamos nós.

O meu menino mais recente (carta) ao fim da segunda aula com scratch mexe já com alguma desenvoltura no programa e parece bem entusiasmado… juntei-o com outro que pouco tem avançado, que se dispersa, que é inseguro e reaje mal aos desafios e ao insucesso e pedi-lhe, a este, que fosse o professor do M… o projecto era interessante e estava a avançar… problema: quando queriam voltar ao princípio colocando o carro na posição inicial para tudo acontecer de novo, faziam-no à mão… sugeri que criassem um comando que o fizesse… com recurso ao x e y (em que temos estado a trabalhar)… ainda avançaram um bocado e estavam no bom caminho… mas depois dei conta de que um bug qualquer colocava o carro em acrobacias… fui dando também atenção a outros alunos (é um sufoco não conseguir dar a atenção necessária aos 21 em hora e meia de aula) e quando regressei… nem sinal do projecto ou do carro… estava outro carro no écran a ser decorado com letras… do outro nada: haviam apagado aquele que continha a dificuldade… fiquei zangada e disse-lhes que na vida não era assim que os problemas se resolviam.. desistir e apagar (na vida não se apagam)… que tinha imensa pena porque o projecto era interessantíssimo e agora estava apagado para dar lugar a outra coisa sem sequer terem chegado ao fim da primeira… A aula estava prestes a terminar. Saldo: nada. Não duvido que no processo tenham aprendido algo, mas não consigo evitar mostrar desapontamento quando isto acontece. Acho que acabam por captar a mensagem…

Entretanto, comecei a perceber que alguns, motivados pela ideia de levantar a fasquia estavam a tentar avançar em direcções relacionadas com a matemática e as ciências (referencial cartesiano, classificação de seres vivos, estatística… eles lá vão escutando… não posso conseguir tudo ao mesmo tempo… nem desanimar porque a velocidade é sempre inferior à que desejo).
Hábitos de colocar a fasquia sempre alto…

No scratch time, à tarde, aconteceram coisas interessantes e, realmente, alguns alunos provaram ter escutado. Aproveitei para projectar um dos manuais traduzidos para português no site do scratch (já operacional – estiveram em manutenção) e depois de passarmos pelas dicas sobre o uso de variáveis, alguns alunos aventuraram-se, indo ainda mais longe. Mas tive de partilhar os portáteis com outra turma (verdadeiramente a turma que teria direito a todos eles) e fiquei com menos seis . Apenas 7 para 16 alunos. Outros alunos de 6º com vontade de ficar, acabaram por se ir embora. Também não ajuda nada esta falta de equipamentos em quantidade…

Registei vários momentos. Deixo dois: num deles, uma aluna do 6º ano entrevista alunas de 5º (fez vários registos interessantes pela sala, a meu pedido, enquanto eu ia ajudando os colegas), noutro a Mada descobre as variáveis… trabalho que continuou e evoluiu… até a espessura da linha acabou por se transformar em variável.
Deixo ainda um projecto do meu cisnedourado (optou por estudar e fazer o TPC sobre classificação de seres vivos recorrendo ao Scratch… enviou-me mensagem ontem, mas só hoje consegui aceder.)

Se todos caminham ao mesmo ritmo? Não. Sei que não é possível… depois de encaminhar uns, regresso novamente à carga junto dos outros, porque quero, quero quero muito, que cada um consiga chegar, sem preguiça, o mais longe que puder.


Não é fácil inverter esta tendência instalada em muitas crianças de evitar as dificuldades, reagir mal a desafios que impliquem trabalho mais demorado e persistente, mas tem de ser combatida com todas as armas. E com convicção. Abaixo as minhas inseguranças! Devagar se vai ao longe…

Scratch Project


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