Dos problemas, dos encantos e da comunicação…


Pelo facto de ser feriado sexta, ontem troquei a aula de Matemática com a de Ciências na turminha de 5º ano (vantagens de ser a mesma professora e de poder optar por uma gestão equilibrada dos tempos, sem prejuízo de nenhum parte… como em Ciências estamos mais adiantados… ). Outras vezes a troca é feita para garantir uma visita à sala de informática numa das disciplinas, de acordo com a necessidade. O saldo final é sempre o correcto (embora tenha decidido que o feriado deveria “eliminar” uma aula de Ciências e não uma de Matemática…)

Iniciei com os desafios do costume:
Meninos! Hoje, a professora que vocês pensam que eu sou não sou eu… E o que vai acontecer hoje não será aquilo que estava previsto acontecer. Quem sou eu afinal! O que vai acontecer hoje?

Já não se deixam atrapalhar! É a gémea da professora! É aquela história que a professora contou um dia que enganou os seus alunos e disse que a professora de Ciências não era a de Matemática eram gémeas!
Oh professora… hoje é Matemática em vez de Ciências?
É cada vez mais difícil dar-lhes a volta!

Iniciámos com um breve balanço dos trabalhos em curso. Continuam sempre a ter imenso que dizer. Chamei a atenção para os erros ortográficos de um dos projectos recentes (correcção a ser feita na aula de estudo acompanhado).
A Butterfly falou dos problemas que está a ter para modelar em Scratch a solução do problema do Caracol – Oh Professora, eu queria que ele subisse três quilómetros de caracol mas ele só sobe dois… – e analisámos em conjunto na turma as possibilidades de programação da animação: utilizar coordenadas (alguns sugeriram que colocássemos o rato onde queríamos que o caracol ficasse e depois copiássemos as coordenadas que aparecem no écran), ou utilizar o movimento com passos.
Na sequência da reflexão que estávamos a fazer… tudo de improviso (quando penso na planificação de pormenor de aulas sinto uma coisa no estômago) fui para o quadro tentar ajudar a sistematizar a informação, porque eu própria vou sendo surpreendida com as possibilidades de exploração de variados conteúdos, ou até simplesmente da quantidade de pequenos problemas que surgem dentro de outros problemas maiores, a propósito dos caminhos que vamos fazendo.
Aqui, neste caso, partimos do problema do caracol… e ao tentar encontrar a sua solução através do scratch… construindo o filme da vidinha do bicharoco – modelação da situação (ele subia 3 km de caracol durante o dia e descaía 2km de noite… pretendendo saber-se ao fim de quantos dias conseguia comer uma ervinha colocada no topo de uma parede com 10 km de caracol…. também usámos outra versão da história: quantos dias para sair de um poço se a profundidade for de 10 m e ele subir 2 m por dia e descair 1m por noite?) surgiram novos problemas… apercebi-me deles e, uma vez que é a necessidade que comanda o desenvolvimento do engenho (e que consegui abrir-lhes o apetite para a “coisa”) não perdi a oportunidade e vai de escala (por exemplo: 20 passos de scratch correspondem a 1 km de caracol), vai de cálculo… quantos passos ao todo para programar uma parede com 10 km de caracol? E para ele andar 3km de caracol como se programa a instrução em scratch? Quantos passos tem que dar o caracol? Dedinhos no ar… E vai de negativos: Experimentem mandá-lo andar menos 40 quando quiserem que descaia… -40 põe o caracol a fazer marcha atrás sem mudar a posição dele nem a direcção em que se desloca, só o sentido muda! Positivo anda em frente, negativo para trás…
Isso é verdade professora? Carinhas iluminadas. Experimentem…
E podemos pôr no projecto um sol quando ele anda de dia e uma Lua quando ele descai de noite?
Excelente ideia!
Nem todos vão fazer o projecto. Eu sei. Mas todos se envolvem na aula como se isso fosse acontecer… Uns acabarão por conseguir, outros desistirão e farão outro… pegando num desafio novo daqui a uns tempos que os motive mais. Outros, como o meu doce Dani, talvez nem tentem. (Excelente aluno… não consigo pô-lo a programar em scratch sem ser presencialmente nas aulas… se bem que agora o provoquei directamente e na aula perguntei: vai um caracolinho? Sorriu-me. Agora… sempre que passo por ele, mesmo na rua, pergunto: e o nosso caracolinho, vai? Não ainda não. Mas ontem em Estudo Acompanhado disse-me… se calhar este fim-de-semana vou tentar… Verbalizou a intenção! Nem queria acreditar… veremos o que vai acontecer na prática!
Darei conta.

De repente:
Oh Professora! Posso anotar aqui no meu diário de campo isso tudo para depois me lembrar quando estiver a fazer o projecto!

Oh Mia!
(Lembram-se da entrada de ontem? correcção do blogue… erros ortográficos…Pois… ela mesma)
Claro que sim! Fico mesmo contente! Vocês sabem que eu não estou sempre a pedir que copiem tudo, porque só interessará a quem decidir avançar com o projecto, mas fico mesmo contente quando vos vejo a tomar iniciativas destas, a mostrar que estão a crescer e cada vez mais são capazes de tomar mais decisões. E, turma, a Mia (bem como outros alunos) tem levado muito a sério a questão do diário de campo! E já me contou que o usou um dia destes para se lembrar de como tinha feito uma coisa num projecto antigo… Para além disso, cada vez vai treinando mais a escrita e escrevendo melhor…

A aula continuou…
Quando dei conta… os apontamentos da Mia estavam tomados. Como se pode ver… a Mia não copiou o quadro… acompanhou a reflexão e registou tudo como sentiu que seria mais útil depois para si.
Fotografei ambos os registos… e não hesito em admitir que o dela é bem melhor do que o meu.

Sobretudo depois de ontem à noite, numa excelente sessão para o seminário do mestrado, partilhada pelo Professor José Lagarto da Universidade Católica (a propósito de LMS), ter sido tocada a questão da organização da informação no quadro… que frequentemente não é tão cuidada como deveria ser para optimizar a comunicação…

Touchée, Professor.
Felizmente há seminários (tenho gostado do que aprendo) e alunos como a Mia para nos ajudarem a melhorar o estilo por vezes caótico (confesso-me) resultante de uma excessivamente curta distância temporal e emotiva entre o funcionamento/pensamento acelerado do cérebro e a mão que o traduz. No caso que descrevo e ilustro, penso que o caracol tem(teve) algum potencial comunicativo… e pelos risos e ohs de espanto dos alunos, a comunicação talvez tenha sido uma razoável realidade (ou a Mia não teria conseguido inventar no caderno algo que eu não cheguei a escrever…) .
Ah! Outra vantagem… o meu giz é bem melhor do que o de ontem da sala de aula da FPCE…🙂
Embora menos organizada, a minha informação era mais visível
Ficamos ela por ela… ?



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