Dos passos, dos saltos, do crescer sozinho, dos “ses”, do tempo que não há…

Se eu tivesse menos alunos, se eu tivesse mais tempo (o tempo que me foi roubado e já era pouco), se a escola tivesse realmente em mente uma intenção de sucesso, aconteciam ainda mais milagres.
Sim, eu sei… se eu tivesse asas… era um passarinho, ou um avião, ou uma mosca, ou uma borboleta… Sim, eu sei que os ses não nos fazem andar para a frente, nos prendem os movimentos se não os soubermos usar como motores para resolver a vida na ausência das condições que sonhamos serem as ideais. Eu sei, mas pronto. Resolver a vida não pode significar apenas aceitar, adaptarmo-nos e não denunciar.

Adiante.
Começa a ser difícil atender todas as solicitações. O bom/complicado de procurar levar todos sem excepção a optimizar as suas capacidades, as suas produções, faz com que a atenção de qualidade (com tempo e calma) seja mais necessária com cada um… e isso tem riscos quando o tempo não chega para todos. Mas realmente começa a acontecer e é uma ginástica nada nada fácil.
Felizmente, também, a procura do desenvolvimento da autonomia dos alunos, que acontece mais depressa nuns do que noutros, ajuda agora nesta fase em que, finalmente, consegui cativar alguns dos resistentes para a elaboração de projectos mais elaborados, mais demorados no tempo a concretizar. E é um conforto grande vê-los a reconquistar a autoconfiança, empenhados sem receio na resolução de problemas nem sempre simples. Tive que separá-los dos parceiros habituais, dar-lhes espaço individual para que o caminho pudesse evoluir (companhias excessivamente absorventes, ou trabalhando em ritmos muito diferentes, podem ser inibidoras nesta fase de crescimento pessoal). Isso significa que ainda tenho que dividir mais as atenções, mas vai compensando… o terceiro período será curto para estas conquistas finais, mas conto no ano que vem prossegui-las.
Hoje deixo aqui, para me lembrar, e em jeito de notas de campo, alguns aspectos dignos de nota.
Finalmente a conclusão do projecto dos Gonfabijo – Bocas e JGFreitas (caracol). Já aqui havia falado dele (e dos “meus engenheiros” planeando ao pormenor a longa sequência de programação que permite ter sempre no canto superior esquerdo a posição do caracol). Hoje posso divulgá-lo. Vale a pena ver.

Scratch Project
Avanços significativos nos projectos individuais do Pimentinha (caracol) e da Marriapi (caracol – versão tokio hotel em que o vocalista da banda tenta chegar à guitarra. Foi assim que o projecto acabou por se tornar significativo e estimulante para provocar o salto qualitativo no trabalho).
Quase conclusão do projecto (caracol, mas com um elefante pigmeu) do Maribe.
Avanço significativo no projecto caracol da Mada e da Falipa (escreve-se mesmo assim – nome de código scratch🙂 que me chamam para colocar problemas que resolvem depois sozinhas quando vou ter com elas, sem precisar de mim (basta a atenção, o mimo da companhia…)

E ainda o início da modelação de uma situação que vai levá-los a trabalhar as fracções sem que eu tenha abordado o assunto. Foi uma ideia que tive na última aula e lá sugeri mais uma “queimadela de neurónios”… quem já encerrou o projecto caracol, avança pelas pizzas fora (dois grupos e uma aluna)… brevemente darei notícias. Antevejo consultas ao manual, investigação por necessidade e umas aulas de apoio teórico para a construção dos projectos. E os mais atrasados criando o apetite… De nada me serve tentar/forçar alinhar tudo nos mesmos tempos. Forço o possível no ritmo de trabalho e respeito o necessário. Não me dou mal com esse tipo de diferenciação que não inibe uns de avançar, não paternaliza quem se atrasa (exijo-lhes sempre o máximo) mas respeita as diferenças mantendo em mente que quero que todos cheguem onde é necessário chegar. O tempo… ah se eu tivesse mais tempo!
(Tenho de falar com as meninas sobre esta coisa do “duplicar oito vezes”… na aula com o entusiasmo nem me apercebi…🙂

Momento importante com a Bia e a Nocas. Ao olhar para a marcação das linhas de avanço do caracol percebi que as distâncias não eram idênticas e perguntei como fizeram. Com centímetros! Centímetros? Sim… usámos a régua em cima do écran! Hummmmmm… e que tal pensar numa forma correcta de proceder que garanta realmente o mesmo valor para as distâncias? Desafiei-as a encontrar uma forma de corrigir a situação…
Mas como?
Digam-me lá, ao longo de que eixo é que se distribuem as vossas linhas de marcação?
Do y.
Sim. E o y não tem valores marcados sobre ele tal como uma régua?
Ah! Pois tem.
Então pensem… Se aqui, por exemplo, forem -240 e tiverem de subir 40 passos para a linha ficar a essa distância da primeira, para onde a enviam?
Fica no -280, professora?
Olhem novamente para o eixo
… (uma delas foi buscar à capa, sem eu pedir, a ficha de trabalho sobre coordenadas cartesianas)… aqui é zero, e aqui? (fui descendo) Ah, é -1. E aqui? -2 Então, quando descemos acontece o quê? Lá percebemos (sem eu referir o termo valor absoluto) que o número aumentava o valor, embora fosse cada vez mais pequenino (por serem negativos).
Então voltemos ao problema… -240… se eu subir 40?
Ah! Fica no -200.
Ok e depois?
Se eu colocar a outra linha à mesma distância?
Então…Tira-se 40 e fica -160… não é professora?
Ora bem, estes valores são exemplos: agora coloquem o rato para ver a posição da primeira linha, mantenham o x constante e vão subindo mantendo sempre a distância.
Avançaram.
Passado algum tempo chamaram-me. Oh professora! A gente fez tudo certinho e esta distância não ficou igual! Veja a conta (vi… erro daqueles…). Meninas… 4 para 13? Ai professora, pois é… tem um erro. Já perceberam que têm de estar com atenção a fazer os cálculos? Qualquer distracção…
Continuaram.
Passado algum tempo chamaram novamente: ai professora… e agora? Estamos no -17 e como é que ele anda 40 para cima? Para onde é que vai?
Desafio difícil. Operar com relativos é algo ainda um pouco fora do alcance… enquanto estamos apenas nos negativos (ou nos positivos) a coisa aguenta-se… cruzar o zero, passar de negativos a positivos… é algo diferente. Mais uma vez tomei consciência de como este desafio do caracol tem permitido os mais diversos tipos de situações problemáticas. Aprendo eu, aprendem eles, ganhamos todos. Sem grandes empurrões nem soluções formatadas ou definições, apenas levando-as a pensar como seria possível cruzar o zero gastando os 17 e passando aos positivos, a Bia propôs algo como:

17 – 40 ?
Não. É ao contrário…
Ah! Tem de ser 40 – 17…
Fazem a conta. Dá 23.
Mas agora é nos positivos!
Mal tive tempo de agarrar na câmara para filmar a folhinha e ainda preservar na memória a última exclamação associada à descoberta…
Então professora, agora fazemos mais…
Agora é sempre mais!
Fazemos 40 mais 23?
Claro!
Ai se eu tivesse mais tempo… sentava-me com elas e estava criada a oportunidade perfeita para explorar algo bem importante. Mas… quase a tocar… é preciso arrumar, é preciso correr, que temos horita e meia para isto tudo, sempre correndo, sempre vivendo de gaveta em gaveta, de aula em aula, agora isto, agora aquilo. Chamamos aprendizagem a este carrocel?

No melhor da festa, despedimo-nos até sexta…
Apetecia-me ser mais junto deles. Apetecia-me ficar mais um bocadinho… o tempo necessário para crescermos sem campainhas pelo meio.


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