Leituras…

Comecei pela ética. Gostei do que li. Partilho algumas palavras do livro* em mãos:

“(…) O comportamento ético está intimamente ligado à atitude – a atitude que cada um leva para o campo de investigação e para a sua interpretação pessoal dos factos. Entrar na vida das outras pessoas é ser-se um intruso. É necessário obter permissão, permissão essa que vai além da que é dada sob formas de consentimento. É a permissão que permeia qualquer relação de respeito entre as pessoas.
Na vida quotidiana as pessoas estão constantemente a negociar essa permissão com os outros, mas só raramente os adultos o fazem com as crianças. Nas relações entre adultos e crianças, os adultos são, a maior parte das vezes, aqueles que detêm o saber, dão apermissão e fixam as regras. Na investigação são as crianças que detêm o saber, dão apermissão e fixam as regras – para os adultos. A investigação com crianças vira parte do mundo às avessas. O investigador adulto que se dirige a outro adulto e lhe pede que seja seu professor está afazer uma coisa que já fez inúmeras vezes – os adultos estão sempre a ensinar outros adultos. Na nossa cultura as crianças não ensinam os adultos. Poderão manipular os adultos, mas fazem-no por norma num contexto em que o adulto detém imperativamente o poder. O investigador que trabalha com crianças deverá pensar cuidadosamente no que significa trabalhar neste mundo às avessas.
Deverá também aprender a viver com a realidade de que será sempre um estranho naquele mundo e de que é assim que deve ser. O investigador que pensar que está a ser inteiramente aceite está a viver no mesmo estado de realidade tenuemente construída em que vive o educador de infância que afirma saber tudo o que se passa na sua sala de aula ou o pai que adopta o mesmo tipo de atitude com os filhos. Ninguém conhece totalmente o outro – na melhor das hipóteses podemos aproximar-nos. O que Geertz diz dos adultos é particularmente verdade para as crianças:

Não podemos viver as vidas de outras pessoas, e fazê-lo é um pouco mostrar má-fé. Podemos apenas escutar o que… elas dizem sobre as suas vidas. Qualquer significado que tiremos de como é a vida interior de outra pessoa resulta das suas expressões, e não de qualquer tipo de intrusão mágica da nossa parte na sua consciência. Tudo se passa à flor do entendimento (1986, p.373).

No sexto capítulo descrevemos a postura do investigador como a de uma pessoa humilde. Entra-se no campo como quem implora, de joelhos, autorização para ali estar. Esta postura não deve apenas ser usada como passaporte de entrada, é uma postura para ser mantida durante toda a investigação. Apresentamos també, três pressupostos essenciais que devem servir de base ao trabalho de campo – as crianças são inteligentes, sabem fazer sentido e querem ter uma vida confortável. Um investigador humilde que respeite as crianças que o recebem como uma pessoa inteligente, sensível e desejosa de ter uam vida confortável terá um comportamento ético em relação a elas.
Iniciar uma investigação com crianças com estas atitudes e pressupostos exige uma relação muito diferente da relação tradicional entre investigador e investigado. Não basta dizer que alguém está atratar as crianças da mesma forma que os bons investigadores sempre trataram os adultos. Não é assim tão simples. Não se pode simplesmente tratar as crianças como adultos. Elas não são adultos. Devem ser tratadas como crianças, mas de uma forma que normalemente os adultos não tratam as crianças. E é nisso que reside o desafio. (…)

* Investigação etnográfica com crianças
M. Elisabeth Graue e Daniel J. Walsh
Gulbenkian
Cap. 4 Ética: ser justo


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