Podia chegar aqui?

Pensei que seria alguma falha na correcção da ficha que havia entregue (minutos antes alguém me chamara para assinalar como errado algo que havia marcado como certo).
Mas não.
Baixinho, quase ao ouvido, disse-me:
– Eu ainda não percebi muito bem o Pi.
Baixinho respondi:
– Não era suposto já terem percebido tudo! Ainda só falámos do Pi numa aula… Mas fico muito contente que já sejas capaz de me dizer que não entendes algo… Tem calma… vamos voltar ao assunto até o mistério estar bem esclarecido.
Voltei à turma e pedi atenção.
Depois pedi autorização ao H para partilhar… ele aceitou.
Ali o H fez algo de muito bom! Chamou-me para me dizer que não tinha percebido o Pi… mas eu acho que ele não é o único… ele só teve foi a coragem de dizer… tal como eu pedi que todos fizessem. Mais alguém não percebeu?
(Voltei a repetir que ainda não havíamos aprofundado suficientemente o assunto e que era perfeitamente natural…)
Mais de metade dos dedos no ar.
Os que não tinham o dedo no ar… já haviam demonstrado que à primeira abordagem a ideia ficara… mas o natural é não ficar. Entender o significado de uma relação matemática que a natureza nos oferece para ser decifrada não é coisa simples. Simples é decorar o número e aplicá-lo em exercícios tipo sem compreender a noção. Mas até ao limite do tempo disponível… procuro a compreensão deste número mágico antes de começarem os exercícios.

E foi assim que lhes comecei a pedir os valores da investigação solicitada como TPC: escolher objectos em casa com forma cilíndrica… ou superfícies circulares para medir diâmetro e perímetro, trazendo os valores para a aula anotados numa tabela. (Oh s’tora, a minha Mãe viu-me a sair para a rua… e perguntou… onde vais?… Vou ali ao carro fazer o TPC de Matemática… Ao carro? Vou medir a roda! Ah! Está bem…🙂 )

O H fez excelentes medições… e aquele triplozito que afinal não era triplozito certo lá se foi desenhando no quadro com o contributo de todos e à vista de todos… relógio, latas de comida, roda de bicicleta…
Tu já viste, H, que a tua lata de fruta e a lata de manga da V apresentam a mesma relação? E viram que os objectos são diferentes e foram medidos por gente diferente?

Até ao final da aula, mais alguns chegaram lá… os olhos denunciavam o encanto da descoberta… a boca explicava.
Ah! É por isso que o V. na ficha, mesmo sem ser preciso, marcou os diâmetros a ver se eram planificações do cilindro! É que se coubessem 3 e mais um bocadinho… dava para dar a volta!

E isso é que é o Pi… Esse triplo e mais um bocadinho. (o H a ver a luz)

Pois… se tivessemos a sorte de ter sido exactamente o triplo… ninguém lhe dava este nome nem lhe ligava nenhuma… era o triplo e pronto.

De seguida dividimos vários diâmetros pelo seu raio e… lá apareceu sempre o número 2…
Já viram? Como o diâmetro é sempre o dobro do raio e o raio metade do diâmetro… este quociente é sempre constante
Só que como é o dobro, pobrezito… ninguém se deu ao trabalho de lhe chamar uma coisinha qualquer assim especial…

Coitadinho (agora brincam… quase quase a tocar… antes do almoço…)

TPC: dividir as medidas dos perímetros pelos diâmetros correspondentes (dos objectos que andaram a medir e colocaram na sua pequena investigação matemática).

Aos poucos os laços vão-se aprofundando. Começam a confiar.
E sinto que estamos a caminhar bem. Muito bem. Como se já os conhecesse há muito e não fossem apenas meus alunos pela primeira vez este ano. Faremos das fraquezas forças porque estão receptivos. Ando ainda a abrir portas e a gerar sedes. É o mais urgente agora.

Desejar receber é meio caminho andado.

(À tarde vou estar com eles outra vez… apeteceu-me partilhar ao almoço a história de uma parte da minha manhã… e vou agora semear uma surpresa no blogue deles… poesia matemática…:)


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