Ele, a vida, o Scratch…

Falei uma vez dele aqui

Nada falei de vida muito complicada, vida de homem-menino com 14 anos que chega a casa tarde na noite. Menino há demasiado tempo no 5º ano. Não oferece problemas de comportamento dentro das aulas… apenas na rua… no grupo de “rua”. Falta… atrasa-se… não trabalha. Vício de falhar em cada ano.

Apareceu no clube Scratch time, gostou  e ficou. Temos tentado, eu e a DT, encontrar a forma de, a partir daqui, o ligar de novo à escola, à vida… nada simples. Nada fácil. Não desistimos. Em vez de mil projectos exploratórios logo publicados, quer chegar bem mais longe. Avancei com as coordenadas. Com a percentagem de redução de tamanho… agora tenta fazer filme de corridas em estrada longa. Dois carros, uma ideia e uma imensa paciência e persistência no trabalho. Há uma semana perguntava em jeito de desabafo, depois de ouvir o toque, por que razão não podia haver mais horas de Clube e mais vezes por semana.  Não consegui responder. Melhor: não podia responder. A escola não está construída para uma recuperação na exigência. Isso requer tempo e atenção ao sujeito. Enreda-se, em vez disso, na criação de caminhos facilitados para quem parece que não gosta dela. Receio que ele acabe um dia numa dessas turmas e lhe peçam pouco quando pode dar tanto.

Perdoar não. Nunca. Responsabilizar. Negociar. Exigir sempre muito. Muito mais. Cada vez mais. Ele é inteligente, percebe as nossas razões. Retirar obstáculos não é solução. Mas não aproveitar áreas fortes porque a escola está cheia de outras coisas para pensar? Crime.

Gosto de puxar por ele. Ele gosta de ser tratado assim. Não é o Scratch. Nem sou eu. Foi uma química qualquer que juntou tudo em momentos sempre muito especiais e felizes. Intenso trabalho, intensa concentração. Agora vai ter de refazer tudo porque não gosta do movimento dos carros… sugeri o comando deslizar associado às coordenadas, que já inclui a variável tempo… Para a semana vai experimentar tudo de novo. Trabalho. Muito mais trabalho. Mas algo que parece fazer sentido para ele. Tivesse eu tempo. Tivesse a escola tempo. Ele não se voltaria a perder em labirinto. Assim, será mais quatro por cento em qualquer estatística de trazer por casa para colocar num papelinho qualquer, feito objectivo transparente que não será preciso ter em conta. Quem já reprovou duas vezes… é como cesteiro. Melhor protegermo-nos: decidir que reprovará já já, antes sequer de o conhecermos melhor. Assim não perturbará os resultados da avaliação do professor. Uma escola preocupada com os resultados estatísticos do professor, cada vez se importa menos com os resultados humanos do aluno-pessoa-única-especial à sua frente..

Eu não sou professora dele. Mas é como se fosse. E gosto do seu entusiasmo. E tenho pena que viva num país onde se quer construir uma escola com contas de mercearia, lápis atrás da orelha. Merecia mais. Muito mais.

1 Response to “Ele, a vida, o Scratch…”



  1. 1 Ele regressou… « muito mais… Trackback em Janeiro 18, 2009 às 10:53 pm
Comments are currently closed.



RSS my delicious

  • Ocorreu um erro; é provável que o feed esteja indisponível. Tente novamente mais tarde.

Blog Stats

  • 162,620 hits
Novembro 2008
M T W T F S S
« Out   Dez »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Categorias


%d bloggers like this: