Scratch: Cláudia e João (cada vez mais, cada vez menos)

Frequentam o 5º ano. Não são meus alunos. Através de uma amiga que frequenta o Clube Scratchtime (e que também não é minha aluna) apareceram um dia e inscreveram-se, passando a integrar o grupo das sextas maioritariamente constituído pelos “pioneiros” do sexto ano.
Nunca se sentiram seduzidos por projectos curtos, despachados em minutos. Depois de algumas experiências onde já se percebia o desejo de complexidade, chegaram um dia ao Clube com o livro de Inglês e decidiram fazer um trabalho sobre as cores para apresentar à professora dessa disciplina.
Conceberam com criatividade a ideia que sustenta o projecto e meteram mãos à obra. A complexidade é grande. Muitos sprites, muitas acções, a necessidade de coordenação perfeita. Uma sessão semanal de 90 minutos e computadores nem sempre em boas condições têm atrasado o processo, mas não desistem e o entusiasmo regressa em cada sessão quando consigo um computador à altura dos desafios que se impõem a si próprios. Ontem, depois de resolvidos alguns problemas de programação, finalmente concretizaram a ideia da “seta” que permite regressar ao início quando se conclui a apresentação de cada cor. Mais uma ou duas sessões e o projecto será publicado. Pelo caminho terão, acredito, aprendido muito mais do que apenas as cores em inglês…

Como o número de alunos foi mais reduzido na sessão de ontem (último dia, muitos computadores com problemas… os mais crescidos e exigentes começam a ficar sem paciência), pude estar mais tempo junto deles e isso fez diferença. A verdade é que quando as TIC surgem no caminho da Escola em desafios criativos e gestos de construção inovadora (e não em padrões repetidos de consumo, iguais aos de sempre, mas a fingir que é mais engraçado porque há computadores), o professor precisa de muito mais tempo para a mediação e os alunos de muito mais atenção e acompanhamento. Exactamente o contrário do que se tem verificado com as políticas recentes: o professor é obrigado a estar mais horas na escola em tarefas que não revertem a favor dos seus alunos e as turmas já nem sequer podem ser reduzidas aumentando cada vez mais de dimensão. Exactamente o contrário do que seria necessário, do que realmente poderia ajudar a combater o insucesso. Exactamente o contrário do que é feito em países que realmente se preocupam com a educação e com o sucesso (não com as estatísticas dele, fabricadas seja lá de que maneira for).

Ao ver/escutar a riqueza do trabalho da Cláudia e do João (com apenas 10 anos), sabendo o caminho e evolução que já fizeram, não posso deixar de sentir, ao mesmo tempo, uma imensa alegria e uma profunda tristeza. Sei que este é o caminho necessário. Transformar as crianças em construtores de conteúdos, sustentadas numa formação de base sólida (em vez de os treinar para o clique do consumo acrítico) é indispensável e urgente (embora não tenha bem a certeza se esse é o desejo real de quem tutela). Sei todas as potencialidades, sei essa urgência de mais exigência, a necessidade de investir e aprofundar o conhecimento nestas áreas, de dar tempo aos profissionais para que isso possa acontecer. Vejo diante de mim a evidência de ferramentas que podiam ajudar a complementar a acção educativa de forma significativa. Mas, em cada dia que passa, com o cada vez maior número de obstáculos que se colocam à acção do professor que realmente deseja e pode fazer a diferença, sei também que, se nada mudar, brevemente tudo não passará de uma miragem, uma utopia que se esgotará por falta de alimento e casa acolhedora. As crianças podem ir muito mais longe com as ferramentas, o acompanhamento e as tarefas e desafios certos, mas a Escola cada vez mais se organiza para as infantilizar, massificar os gestos, exigir cada vez menos, reduzindo-lhes a possibilidade de ser e aprender muito mais e mais depressa e viciando-os no fácil.
Não consigo entender por que razão lhes cortam intencionalmente as asas na casa que devia ser destinada a desenvolvê-las e a torná-las mais fortes…
Não querem (não interessa) vê-los chegar mais alto?

Sai cara a possibilidade de mais tempo disponível para cada criança? De maior investimento nos factores capazes de melhorar realmente aquelas que são as verdadeiras (novas) oportunidades de sucesso antes do insucesso acontecer? Sai caro investir numa verdadeira política de promoção (preventiva) da qualidade da educação, em vez de continuar ano após ano a gastar cada vez mais dinheiro numa política de remediação de erros e de endeusamento de números e estatísticas ocas e sem significado, com os olhos exclusivamente focados nos fins sem prestar atenção aos meios?

Vai custar muito mais caro ao futuro tudo o que tem sido feito para poupar tostões à custa da qualidade do atendimento aos alunos da Escola Pública.
Não é novidade que o acesso à tecnologia não é suficiente. Neste ano em que a criatividade e a inovação deveriam estar no topo das prioridades, vê-se exactamente o oposto na escola. Valoriza-se a acomodação, a conformidade, a completa e acéfala obediência a causas que nos afastam das crianças. Subtrai-se o tempo que lhes devia ser dedicado. Penaliza-se quem deseja dar-lhes a expressão que sustentaria a mudança necessária em direcção a um caminho mais exigente, muito mais capaz de transformar as nossas crianças em seres fortes, conhecedores e com os recursos para poder vencer os obstáculos que impedem que este país se cumpra, fazendo bem mais e melhor pela Pátria do que esta geração de adultos que lhe comanda os destinos e a afoga lentamente…
Eles são capazes… Só precisam de verdadeiras e inovadoras oportunidades… agora.
Não depois…
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