Oh Professora, aquilo é a média!…

Oito e pouco da manhã. Frio, vento e chuva.

Mas já o coração aquece na companhia deles, a caminho da sala gelada do barracão do jardim… Vêm correndo ao sabor da frase habitual: quem chegar depois de mim à porta tem falta! Risota, claro. Mas sabem como sou exigente com a pontualidade… A S. simbolicamente chega à porta e toca nela para garantir que chegou, como num jogo, em primeiro lugar… estando livre de “perigo”.
A B. entusiasmada vem falando ao meu lado, contando, explicando:
– Oh Professora, sabe um programa que há na televisão com muita gente a cantar? E depois elas têm de dar a nota certa e o máximo é 100 pontos que uma máquina dá? …
– Sim… E?… (com tanto entusiasmo ocorreu-me que tivesse estado por lá nas férias, ou em algum casting…)
– E depois por baixo aparecem uns quadradinhos e vão lá pondo os pontos que se tem, em cada sítio da canção que conta…
– Sim… E?…
– Oh professora, aquilo é a média que nós demos nas aulas! O que depois eles fazem é achar a média dos pontos todos porque juntam tudo e dividem pela quantidade de quadradinhos!
(Ao lado a I. sorria e a B. continua a falar ao meu lado até chegarmos à secretária)
Tens de contar essa tua descoberta à turma!
Mais sorrisos.
– A I. até já consegue, de cabeça, olhar e saber se a pessoa vai conseguir os pontos que são precisos para passar à fase seguinte ou ganhar! Ela sabe achar assim mais ou menos a média de cabeça!
Iniciei este período (mais uma vez) a falar do sentido que a Matemática dava, e não retirava, à vida. Que eles nunca deixassem de colocar acima de todas as coisas, quando resolvem problemas Matemáticos, a sua inteligência do dia a dia, a sua lógica, o seu espírito crítico, a sua capacidade de observação. Muitas vezes isso tornava-se mais importante do que o conhecimento dos procedimentos, embora sem esse conhecimento fosse muito difícil progredir e avançar na capacidade de resolver problemas mais elaborados e desenvolver o pensamento matemático em geral.
Por favor, se a pergunta num problema for que idade tem uma menina e errarem as contas, nunca deixem escrito uma coisa como: a menina tem 95 anos!
Riem.
Ou… à pergunta como distribuir 45 alunos por dois autocarros, numa visita de estudo, atreverem-se a responder 22,5 alunos em cada autocarro!
Ao longo de dois anos, esta tem sido uma conversa à qual regressamos sempre.
E sei que não foi em vão para a maioria.
Aproxima-se depressa demais a hora do adeus a estas crianças doces que partilharam comigo, enquanto parceiros, dois anos de trabalho intenso e produtivo. Se me pudessem dar mais um aninho com eles…
Mas a vida é assim: este ciclo constante de chegadas e partidas.
Asas mais fortes. Voem sem mim agora!
Conto ficar a morar um bocadinho nos seus corações.
Eles nunca mais vão sair do meu…


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