Caminhar ao ritmo possível: um direito de todos (?)

As turmas são grandes demais. Em especial as dos alunos do 1º ano (5 – 6 anos).
Eles são muito pequeninos, ainda pouco autónomos, alguns muito imaturos (frequentemente os que não frequentaram “pré”, mas não apenas… muitos dos condicionais com 5 anos, outros por outras razões… faltas em excesso, pouca estimulação precoce…), outros, por vezes, apresentam atrasos cognitivos (em certas zonas críticas da cidade) e podem ser mais do que um numa sala de aula.
Mais de 20 (é o que encontro habitualmente) faz com que o professor, muito naturalmente, gaste o tempo de apoio mais individualizado junto das crianças com mais dificuldades. Nunca foi diferente. Os “mais abandonados” são geralmente os alunos que conseguem e conseguiriam ir (ainda) mais longe mais depressa, que querem mais, que têm sede e fome, que precisam de nós tanto como os outros, que podem ficar mais tempo sozinhos porque não se desconcentram nas tarefas, porque são persistentes, normalmente pacientes (nem sempre), estão no fundo da sala e não “perturbam nem aborrecem com as coisas próprias de criança” (a maior parte das vezes)…
Mas a verdade é que precisam tanto de mimo, atenção apoio e estímulo como os outros. E um quase nada pode fazer muita diferença. Magoam-me todas as oportunidades desperdiçadas pelo facto de sair caro ter turmas mais pequenas… precisarmos de mais professores e mais escolas para fazer melhor trabalho. Caminhar ao ritmo possível será realmente um direito de todos? Uma utopia que mora cada vez mais longe?
A vantagem da formação é, também, colocar quatro olhos, quatro mãos e dois corações dentro de uma sala de aula. Por isso eles gostam, os professores apreciam a desmultiplicação de tarefas (a possibilidade de reflectir sobre elas) e, assim, algumas coisas não planeadas podem acontecer
Sei que custaria mais dinheiro… (o que se ganharia em troca um dia?) mas consigo ver dois professores em permanência dentro de uma sala em par pedagógico com estas novas gerações de meninos (maior complexidade emocional, maior imaturidade, muito menor autonomia em geral), sobretudo em certas zonas críticas. Para que todos pudessem ter direito a… e a flexibilização e adaptação curricular, a palavra desenvolvimento (sempre secundária em relação à recuperação – o tempo não estica) deixassem de ser (quase apenas) palavras bonitas no léxico educativo.

Hoje, a propósito de uma tarefa relativamente simples (para a maioria dos alunos de uma das turmas de 1º ano onde estive, mas não para todos), apercebi-me do entusiasmo do T. (6 anos) tentando antecipar o problema (“é assim… com as mesmas cores a gente tem de fazer bandeiras mas com as cores nas ordens diferentes”…) mesmo antes da professora o enunciar. Mal viu no quadro o exemplo de uma primeira hipótese, os seus olhos fixaram-se na figura à procura de antecipar a solução. Avançou imediatamente com o número 6 – dá para fazer seis bandeiras diferentes. (Mais tarde perguntei como pensara e disse-me… 3+3 porque eram 3 cores… o que veio a revelar-se um método pouco fiável, como ele próprio reconheceu.)

Já depois da actividade concluída (ele foi dos mais rápidos), enquanto a professora acudia a todos os que não concluiram a primeira tarefa e avançava com mais alguns exercícios complementares para os restantes, eu (que devia ter vindo para casa, porque o acompanhamento acabara) fiquei mais um pouco com ele e lancei-lhe um desafio que sabia não ser simples. Tomás… e se fossem… 4 cores? Olhou para mim e respondeu logo: então… era 4+4 e dava 8 bandeiras diferentes.
Queres experimentar?
O que se seguiu fala por si. A única sugestão que lhe dei foi a de organizar o trabalho mantendo a primeira cor que escolhesse até esgotar todas as possibilidades… o resto ficou por conta dele.
A segunda parte do vídeo (acabou-se a memória do cartão antes dele concluir a tarefa) é como se fosse eu hipnotizada escutando-o a falar… “eu vou falando comigo”… disse-me depois. Eu percebi.
Encantamento.
Depois de concluída a tarefa quis fazer com 5 cores… e não o consegui impedir… mesmo sabendo que… 1x2x3x4x5 … Eu se não acabar aqui quero levar para casa para fazer…
Lá o deixei absorvido na tarefa e vim-me embora uma hora mais tarde do que o suposto. Tempo mais que bem ganho

4 Responses to “Caminhar ao ritmo possível: um direito de todos (?)”


  1. 1 Alexandre Monteiro Março 6, 2010 às 1:06 am

    Ler este blog faz-me recordar os 4 anos (há uma década e tal atrás) em que leccionei 7º, 8º, 12º e ensino nocturno no 11º grupo B. Contudo, apesar de ter sido delegado de grupo, director das instalações laboratoriais, representante no CP e director de turma várias vezes, nunca me vi afogado em tanta burocracia e papelada por preencher como a que suspeito existir agora (e Deus sabe como ela existia). Parabéns por ainda conseguir encontrar um instante para fazer aquilo que os professores deveriam fazer em exclusivo: ensinar.🙂

  2. 2 3za Março 6, 2010 às 10:14 am

    Obrigada pelas palavras de apoio e incentivo…🙂
    Não tem sido fácil…

    Gostei do “teu” espaço… e adicionei-te no facebook (raramente o faço, mas temos a Elis pelo meio e isso só pode ser uma coisa boa!)

  3. 3 Manual Escolar 2.0 Março 13, 2010 às 3:19 pm

    Num artigo no nosso site, incluímos um link a este artigo. Pode verificar aqui: http://www.manualescolar2.0.sebenta.pt/projectos/sebenta/posts/259.

  4. 4 3za Março 13, 2010 às 7:14 pm

    Muito obrigada!
    Há tempos (num outro blogue meu) divulguei o Manual Escolar 2.0…🙂


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