Archive for the 'pensar alto' Category

Scratch@MIT – 11 a 14 de Agosto

Quase a começar o encontro no MIT
Scratch@MIT  reimagine, rethink, remix

Este ano não pude estar presente fisicamente (com muita pena)… mas estou a preparar com os organizadores a participação numa das sessões (via skipe – videoconferência) onde falarei da minha experiência. O painel é muito dedicado ao tema da construção prévia, por especialistas/educadores, de projectos/jogos/actividades para os alunos usarem e aprenderem conteúdos, mas eu defendo sobretudo que sejam os alunos a programar os seus próprios conteúdos, desenvovendo competências importantes de todos os tipos – específicas e transversias – durante esse processo. Claro que os alunos usam outros projectos para jogar, para recolher inspiração, mas não gasto o pouco tempo útil que tenho com eles nessa tarefa… Tão pouco a programo deliberadamente. Consumidores já eles são… o desafio é torná-los construtores/produtores! Penso que o debate será interessante… As pespectivas de abordagem não são necessariamente opostas, antes se cpmpletam (embora, para mim, seja de longe muito mais importante colocar a ferramenta nas mãos dos alunos de forma aserem eles a construir os seus próprios projectos…)

Temos estado todos em contacto ensaiando e testando a comunicação (quarta será o último teste, a prtir do MIT) e alinhavando a forma de participação de cada um.

244 Scratch in Math and Science Classrooms
Behrouz Aghevli, Karen Randall, Nevit Dilmen, Nikos Dapontes
Classroom-ready Scratch projects are a great tool for enhancing math and science learning in school. The activities, games, and demonstrations that are developed by educators for this purpose are an excellent starting point for students to explore concepts on their own and extend them. There are several educators and groups that have created galleries with many such projects. However, the use of these galleries and projects in classrooms is very limited. In this panel discussion, we will identify and examine ways to help improve and promote the development and use of classroom-ready projects and galleries for math and science. We will share the experience of our informal international Super School group as a starting point. We will also examine the state of math and science galleries and projects and their usage.
(excerto do programa da conferência
http://web.media.mit.edu/~kbrennan/conference/final/Scratch@MIT_FINAL.pdf)

Na organização do tempo, vai caber ainda esta questão (How do you use Scratch in math and science classes?) para os participantes… e é aí que se abre a porta para reflectir sobre outro tipo de utilizações e partilha, entre todos, das formas como o Sratch é usado nas aulas em diferentes locais do mundo.

Férias? Foi você que disse… Férias??
Não se preocupem… faz parte…………

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Em jeito de balanço (Fazer o pino…)

Depois do mestrado, este foi o ano mais intenso que alguma vez vivi.
Para além dos meus 28 alunos na escola, tive cerca de mais 28 x 22 alunos (do 1º, 3º e 5ºs anos) que acompanhei de perto, me conheciam o nome (de muitos também eu sabia o nome), o sorriso e os imensos desafios com que os provocava nas aulas. Criámos laços grandes e fui sempre recebida (por eles e pelos professores) com um carinho que atenuava qualquer cansaço e renovava a energia em cada novo dia de “acompanhamentos” (que eram aulas dadas em par pedagógico com as suas professoras e professores… às vezes durante um dia inteiro: dois turnos de primeiro ciclo de manhã e outros dois à tarde, das 9 às 17:30).

Em fase final de avaliação dos portefólios dos formandos, dou com esta foto dentro de um deles e as memórias regressam todas. Não, não era uma aula de educação física… Para as crianças mais pequenas, se rodarmos uma figura, ela passa a ser uma figura diferente com uma outra designação. Uma das formas de ajudar a desenvolver o sentido espacial e levar os alunos a progredir corrigindo as suas intuições primeiras é usar o corpo neste processo. Tenho sempre voluntários para servirem a causa. O João à noite quando se deita, deixa de ser o João? O João de pernas para cima… já não é nem se chama João?

E como estas, muitas outras aventuras do crescer foram vividas com intensidade. Entre adultos, com as crianças. O saldo é muito positivo, depois da avaliação feita. Nos grupos apenas uma desistência por motivos de saúde… Os restantes concluiram com sucesso a formação e mesmo aqueles que estavam em dificuldade para redigir o trabalho, acabaram por ganhar coragem com o estímulo e a ampliação do prazo (uma das razões pelas quais este ano só conseguirei fechar a “loja” no final de Julho). Mas eles mereciam esse meu esforço de atender às suas dificuldades porque trabalharam muito e nem sempre nas melhores condições. Estão todos de parabéns os meus 28 “meninos” crescidos. Mais laços, mas abraços. Acho que já não sei passar pela vida sem misturar tudo. A dimensão humana das coisas faz mais pelos professores do que a legislação imposta, os chicotes sem nexo, os abusos com que passámos a conviver regularmente.


Também eu fiz o pino o ano inteiro tentando que nada falhasse…

Ainda me falta um pedaço de coisas para colocar em ordem. Na escola ajudar o grupo a pensar o novo programa. Na ESE encerrar a nossa oficina de formação com um trabalho que… me vai custar a fazer (ano longo e denso) mas terá de ser feito. E acabei de aceitar um convite para integrar um grupo do Instituto de Educação… produzir alguns exemplos de trabalho com as TIC, nas nossas áreas científicas, que permitam levar os alunos a atingir determinadas metas de aprendizagem nesta área transversal das tecnologias. Reunião em Lisboa sexta… Não devo ter muito juízo… mas isso não é novidade para ninguém.

Arranjar energia para encerrar o ano… embora agora o compromisso seja entregar os tais exemplos até…. 15 de Setembro… Já se vê…
1,2 e 3 Aveiro, ProfMat
A agenda nunca fica vazia.

Não é como a agenda do Silvestre que mora no meu jardim e o considera já o seu lar, seu retiro seguro, o seu porto de abrigo (e onde tem uma casinha feita de propósito para ele… pois mais um em casa é complicado… os machos fazem resistência e acabariam todos feridos e zangados).

Ai Silvestre… Confesso que às vezes sinto uma certa inveja…

De descoberta em descoberta (múltipos de 11)

Há tempos deixei na teia o testemunho de uma descoberta feita por uma aluna, a propósito dos múltiplos de 11…
 
Já quase todos tinham saído, quando a Inês me chamou por causa de uma “descoberta”… Deixei-a para o fim e fui sentar-me com ela já no intervalo. Aos primeiros minutos, percebi que era coisa “grande” e fui buscar a máquina. Deixo o testemunho…
Dizia-me no fim: aprendemos coisas até nas fichas de avaliação! Se eu tivesse descoberto isto no dia da ficha não tinha tido este exercício incompleto!

 

Esse momento não ficou encerrado em si mesmo e transportei-o para a aula seguinte. Combinámos, eu e a Inês, não abrir o jogo mas sim dar a oportunidade a todos de chegar às mesmas conclusões ou a outras. Entretanto, como se vê no vídeo, a Inês lá levava na mala outro desafio: como seria com números da ordem dos milhares? Será que era possível descobrir nos quatro algarismos alguma regularidade, tal como havia descoberto em múltiplos de 11 com três algarismos (da ordem das centenas?).

O que se segue aconteceu depois em duas aulas e em mais um tempo de Clube (onde quatro alunos pediram para ficar a trabalhar na investigação matemática, em vez de irem para os computadores.)

Pelo caminho ficam os vídeos que fiz na sala de aula de hoje (para memória futura… informação a mais para partilhar aqui), onde a maioria dos alunos se entusiasmou na procura de regularidades e na descoberta de uma regra única que permitisse identificar múltiplos de 11 com quatro algarismos. Conseguiram e ainda exploraram outras variantes e ensaiaram outras hipóteses. Acho que amais surpreendida era eu e acabaram por acreditar que estavam no comando das operações pensando em algo sobre o qual eu nunca havia pensado.
Desafio que levaram para o Clube Scratch time: E com cinco algarismos? Será possível enunciar uma regra comum para todos? Descobrir uma qualquer regularidade?
Deixo algumas imagens do quadro interactivo cheio dos seus contributos, sugestões e também registos, alguns vídeos de hoje (em duas partes) e fotos dos seus cadernos (não solicitei cópia, mas cada um interpretou e organizou os registos do quadro no seu caderno, de forma pessoal). Hoje alguns alunos aprenderam a fazer divisões… sobretudo pelo desejo de avançar na investigação e verificar as suas conjecturas.

Ao fundo, escuta-se a voz do Fred ajudando os restantes alunos nos seus projectos Scratch (por onde fui também passando). Gosto deste ambiente intimista e sossegado. Bom para pensar e fazer descobertas com significado. A Escola dos meus sonhos, a escola de que precisamos, é tão diferente da escola de massas que temos… Tudo o que parece sair barato agora, custará muito caro no futuro.

Mesmo assim… há dias onde tudo parece possível!

Dia de Clube, de música, de crescer…

span style=”font-family:verdana;”>Último dia de aulas com eles.
Levaram guitarra… mostraram-me os seus dotes (muitos alunos frequentam o conservatório).
Cantei para eles. Não conheciam esta faceta e foi mais uma partilha de quem somos, para além do universo da escola.

No clube investimos algum tempo na aprendizagem de utilização do Facebook…
Há perfis que começam a estar exemplares e eles perceberam bem a diferença. Assim já os visito e deixo um mimo aqui e ali para reforçar o esforço.
Mas também cantámos muito… e quiseram passear pelo Sabor Saber para poderem ensaiar as canções que por lá andam… Rimos muito, também. São horas felizes aquelas em que estamos juntos.

No saldo de alguns projectos concluídos hoje e publicados, destaco o da Carolina Couto… que esteve duas sessões a trabalhar nele de forma muito empenhada – salto qualitativo imenso com aprendizagem de novos comandos, introdução de variáveis e caderno e livro de Matemática abertos ao seu lado… Não é aluna da minha turma, mas é como se fosse.
Chamo-lhes meus a todos, porque se pode ser também Professor de coração e adoptar os que nos procuram para além das nossas turmas. São já uns quantos nas sessões do Clube que vão entrando… e ficando.

Múltiplos de 8 (está dado o mote para vários projectos semelhantes com outros valores e para os divisores também… já os provoquei)
… não deixem de espreitar:

Scratch Project

O Facebook e “eles”

Universo digital…
Todos os anos há novidades…
Todos os anos acrescentam coisas aos anteriores.
Este ano estou a ser supreendida com o crescente número de alunos meus do 5º ano que se colaram ao Facebook, me descobriram, me adicionaram… e aparecem a espreitar…
A maioria o que faz?
Joga. Alguns aderiram apenas por essa razão.
Outros jogam porque não sabem o que mais podem fazer com aquilo, para além de uma ou outra conversa ocasional com alguém.

Depois de no fim-de-semana alguns terem reagido às fotos do Clube e à notícia da reportagem, resolvi que era tempo de uma conversa sobre o assunto.
Avisei hoje, mas só a teremos na quinta, no Clube.
Em que termos a faremos?
Simples. Comecei por saber quantos são.
16 em 26 (embora me tenha apercebido de que pelo menos uma aluna o fez/faz sem conhecimento dos pais e usa um nome diferente… será motivo para uma conversa futura mais pessoal…)
Depois disse:
– primeiro: não concordava com a sua presença por lá, porque isso violava uma regra e os colocava na posição de mentir sobre a idade, o que não me parecia correcto. Alguns confessaram que estão por lá como se tivessem 18 anos… e por aí fora…Valorizei a posição dos que não acrescentavam mais distracções ao seu já movimentado digital quotidiano, concentrando-se noutras actividades mais prioritárias.
– segundo: tendo os pais conhecimento e estando a sua rede controlada, então era uma responsabilidade da família, embora eu, na qualidade de sua professora de Matemática e tecnologias, tivesse uma opinião, uma palavra a dizer, e não prescindisse dela.
– terceiro: não enterrava a cabeça debaixo da areia fingindo que eles não estavam lá e que aos interessados explicaria como usarem a rede de forma mais rica e proveitosa… partilhando, por exemplo, projectos seus, entradas no blogue da turma com trabalhos seus, música de que gostam… Não o sabem fazer. Penso que alguns desejam aprender. Oh professora dá para fazer isso tudo? A professora às vezes põe uns vídeos bonitos…

Combinámos então para quinta…

São realidades novas… universos que se abrem.
Fingir que não existem é o maior erro. Proibir na crença de que não encontrarão uma forma, não é solução.
Ajudá-los a crescer neste mundo que os distrai com tanta coisa, de forma a conseguirem gerir da melhor maneira, sem se perderem, tudo o que existe à sua disposição… parece-me ser o melhor caminho para qualquer educador que se preocupe.
Desengane-se quem usa a expressão “no meu tempo!”… o mundo não volta nunca mais a ser como era! É melhor olharem mais para o futuro do que para o passado. Prospectiva estratégica.
Fomos nós que inventámos o mundo que temos e oferecemos. Somos nós que dizemos os sins, os nãos, os nins…

(E, meninos, se vierem espreitar leiam com muita atenção que só vos faz bem ler e aguardem…)

Caminhar ao ritmo possível: um direito de todos (?)

As turmas são grandes demais. Em especial as dos alunos do 1º ano (5 – 6 anos).
Eles são muito pequeninos, ainda pouco autónomos, alguns muito imaturos (frequentemente os que não frequentaram “pré”, mas não apenas… muitos dos condicionais com 5 anos, outros por outras razões… faltas em excesso, pouca estimulação precoce…), outros, por vezes, apresentam atrasos cognitivos (em certas zonas críticas da cidade) e podem ser mais do que um numa sala de aula.
Mais de 20 (é o que encontro habitualmente) faz com que o professor, muito naturalmente, gaste o tempo de apoio mais individualizado junto das crianças com mais dificuldades. Nunca foi diferente. Os “mais abandonados” são geralmente os alunos que conseguem e conseguiriam ir (ainda) mais longe mais depressa, que querem mais, que têm sede e fome, que precisam de nós tanto como os outros, que podem ficar mais tempo sozinhos porque não se desconcentram nas tarefas, porque são persistentes, normalmente pacientes (nem sempre), estão no fundo da sala e não “perturbam nem aborrecem com as coisas próprias de criança” (a maior parte das vezes)…
Mas a verdade é que precisam tanto de mimo, atenção apoio e estímulo como os outros. E um quase nada pode fazer muita diferença. Magoam-me todas as oportunidades desperdiçadas pelo facto de sair caro ter turmas mais pequenas… precisarmos de mais professores e mais escolas para fazer melhor trabalho. Caminhar ao ritmo possível será realmente um direito de todos? Uma utopia que mora cada vez mais longe?
A vantagem da formação é, também, colocar quatro olhos, quatro mãos e dois corações dentro de uma sala de aula. Por isso eles gostam, os professores apreciam a desmultiplicação de tarefas (a possibilidade de reflectir sobre elas) e, assim, algumas coisas não planeadas podem acontecer
Sei que custaria mais dinheiro… (o que se ganharia em troca um dia?) mas consigo ver dois professores em permanência dentro de uma sala em par pedagógico com estas novas gerações de meninos (maior complexidade emocional, maior imaturidade, muito menor autonomia em geral), sobretudo em certas zonas críticas. Para que todos pudessem ter direito a… e a flexibilização e adaptação curricular, a palavra desenvolvimento (sempre secundária em relação à recuperação – o tempo não estica) deixassem de ser (quase apenas) palavras bonitas no léxico educativo.

Hoje, a propósito de uma tarefa relativamente simples (para a maioria dos alunos de uma das turmas de 1º ano onde estive, mas não para todos), apercebi-me do entusiasmo do T. (6 anos) tentando antecipar o problema (“é assim… com as mesmas cores a gente tem de fazer bandeiras mas com as cores nas ordens diferentes”…) mesmo antes da professora o enunciar. Mal viu no quadro o exemplo de uma primeira hipótese, os seus olhos fixaram-se na figura à procura de antecipar a solução. Avançou imediatamente com o número 6 – dá para fazer seis bandeiras diferentes. (Mais tarde perguntei como pensara e disse-me… 3+3 porque eram 3 cores… o que veio a revelar-se um método pouco fiável, como ele próprio reconheceu.)

Já depois da actividade concluída (ele foi dos mais rápidos), enquanto a professora acudia a todos os que não concluiram a primeira tarefa e avançava com mais alguns exercícios complementares para os restantes, eu (que devia ter vindo para casa, porque o acompanhamento acabara) fiquei mais um pouco com ele e lancei-lhe um desafio que sabia não ser simples. Tomás… e se fossem… 4 cores? Olhou para mim e respondeu logo: então… era 4+4 e dava 8 bandeiras diferentes.
Queres experimentar?
O que se seguiu fala por si. A única sugestão que lhe dei foi a de organizar o trabalho mantendo a primeira cor que escolhesse até esgotar todas as possibilidades… o resto ficou por conta dele.
A segunda parte do vídeo (acabou-se a memória do cartão antes dele concluir a tarefa) é como se fosse eu hipnotizada escutando-o a falar… “eu vou falando comigo”… disse-me depois. Eu percebi.
Encantamento.
Depois de concluída a tarefa quis fazer com 5 cores… e não o consegui impedir… mesmo sabendo que… 1x2x3x4x5 … Eu se não acabar aqui quero levar para casa para fazer…
Lá o deixei absorvido na tarefa e vim-me embora uma hora mais tarde do que o suposto. Tempo mais que bem ganho

Da Matemática (e das outras coisas de que ela precisa…)

A minha “nova vida” este ano tem-me permitido aprofundar a reflexão crítica sobre a prática do ensino da Matemática. Olhar os outros é olhar também para nós. Olhar os outros desde os primeiros anos de escolaridade, é começar a compreender as razões de algumas diferenças (que observamos depois mais tarde) que podiam e deviam ser atenuadas, por não se relacionarem com as características dos alunos mas, claramente, com as abordagens que os professores colocam em prática, condicionadas pela imensa falta de tempo (e condições em que trabalham) e com o seu próprio conhecimento/desconhecimento/gosto/desgosto pelas questões da Matemática e da Educação Matemática. Sem tempo… não se melhora o conhecimento em nenhuma destas duas áreas. Uma sem a outra não conduzem, por norma, a (boas) práticas persistentes e consistentes no tempo. O “pontual” e o “esporádico” não chegam para fazer a diferença.
  


Nenhuma reflexão fica completa sem leituras que suportem as nossas intuições e a nossa prática. Sem estudos que confirmem algumas relações entre estratégias e desempenho, que estimulem a mudança sustentada da acção para que se produza diferença… (das leituras falarei depois…)

 
É nos professores que reside o maior potencial para causar diferença. E se eles forem tratados como até agora, sem tempo para se actualizar, estudar e aprofundar questões científicas e didácticas, não esperemos que os Planos de Emergência apaguem fogos… Nem acreditemos que os Programas, com regras de execução que não permitem o aprofundamento necessário (excesso de solicitações para o tempo real disponível), mudem a maioria das pessoas nele envolvidas.

.
Com remendos superficiais pouco se consegue. Tocam-se apenas os já muito motivados, com práticas aceitáveis que, com mais ou menos ajuda, acabariam autonomamente por evoluir até à excelência.
 

Já aprendi que é possível leccionar-se o primeiro ciclo sem afinidade com a Matemática (diria mesmo, com forte rejeição emocional à disciplina, provocada por um percurso de más experiências enquanto o professor foi aluno). São percursos confessados, com humildade e profunda consciência das suas limitações, por professores maravilhosos e dedicados que querem aprender para poder oferecer mais entusiasmo e rigor aos seus alunos. Já confirmei a minha ideia de sempre que quem lecciona o 1º Ciclo tem a tarefa mais dura e mais importante de todas… aquela que deveria ser mais valorizada.
Que muitos professores lutam para fazer melhor, procuram a ajuda possível, alimentam as suas crianças diariamente (com todas as disciplinas possíveis) sem tempo para respirar e com um carinho que é devolvido à nossa frente pelos meninos e meninas que são seus. Mas a pouca ajuda não chega a todos, nem o tempo de que dispõem hoje (nenhum) permite fazer um trabalho profundo e realmente sustentado de actualização em várias matérias, nomeadamente a Matemática.


E fazê-lo com vinte e tal crianças hoje (quantas vezes com mais do que um ano de escolaridade na turma), não é o mesmo que fazê-lo com as crianças que fomos, num outro tempo e mundo. Visitem-nos e perceberão o esforço, o amor, a dedicação. Não é por acaso que no Canadá – Ontário (dos melhores resultados em Educação) a estratégia se virou para os primeiros anos com uma medida simples: redução do tamanho das turmas.

Nas condições actuais, com tudo o que foi feito para retirar aos professores o tempo de que precisam para preparar melhores intervenções e construir materiais diariamente… não é expectável que o panorama se altere para melhor. Diria até que poderemos esperar o contrário, se nada for feito de realmente consistente para transformar os cenários que temos.
Os professores do 1º Ciclo são, juntamente com os professores do 2º Ciclo, o pedaço mais importante da viagem que culmina com o gosto/sucesso ou desgosto/insucesso nesta bendita/maldita disciplina. Estudos parecem confirmar que a janela de oportunidade se fecha aos 12 anos… Então, o que estamos a fazer aos nossos professores inventando mil formas de os afastar daquilo que deveria ser a sua verdadeira e principal missão?



Não tenho soluções milagrosas. Uma estratégia nacional de fundo que oferecesse formação exigente em contexto, tempo para a fazer e estudo da aplicação vs resultados, ajudaria. Paliativos, pensos-rápidos, um pouco de alcatrão para tapar os buracos quando aparecem, não são solução… mas é assim que temos vivido em muitos sectores: navegando à vista sem planos, sem prospectiva estratégica, com pessoas ignorantes nas mais básicas matérias educativas (e outras) liderando os (maus) destinos da nossa vida comum.

Eu comecei este texto, pensando que diria duas linhas e depois apresentava os livros e vídeos de que vos queria realmente falar. Será noutra entrada, quando conseguir tempo para partilhar leituras que me têm ajudado. Mas puxei por um fio preso à emoção dos dias que têm corrido velozes e cheios de trabalho, acompanhando os professores e os meninos nas suas escolas e compreendendo as fragilidades, os sucessos, os insucessos, as dificuldades, a falta de tempo para conseguir mais e melhor. Meto as mãos na massa com todos eles e agora sinto que ando a ser professora (de meninos dos 6 aos 15 – percursos alternativos, 5º ano) pela cidade fora, em parceria com colegas que se dispuseram a fazer formação (alguns mesmo sem precisar de créditos – contratados), ajudando-os nas aulas e sendo realmente adoptada como mais uma professora das turmas (fico sempre tocada com o carinho do acolhimento nas segundas visitas e a despedida ternurenta nas primeiras com a pergunta: voltas quando?). No primeiro ciclo as despedidas e olás vêm com abraços “ao molhinho” de seres muito pequeninos a precisar de toda a atenção do mundo… não importa a origem, a raça, o bairro onde vivem.

 


Se os puder ajudar a todos (professores e alunos) um bocadinho… já fico feliz.
Mas este bocadinho não vai chegar e precisarão de (muito) mais…

Só mais umas palavras com açúcar dentro: numa das aulas onde estive, vi entrarem mães com os seus meninos… e aproveitei para pedir autorização para fotografar as mãos e o trabalho delas, explicando as razões. A certa altura entra uma mãe grávida, que veio deixar o seu menino e falar com a professora… Olhámos uma para a outra e o abraço cresceu num segundo: foi minha aluna na Luísa Todi… há muitos muitos anos. É dela o menino na terceira foto…


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